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Burquina Faso e os dias de malária.

Desde o Mali que não nos sentíamos bem. Uma dor de cabeça que não passava, o corpo  dorido e moído. As noites eram passadas em claro, com o suor a empapar os lençóis. Tínhamos os dois os mesmos sintomas, o que levava a crer que foi algo que comemos ou bebemos. Um vírus, quem sabe?

Em Ouagadougou, capital de Burquina Faso, os sintomas agravaram-se, as dores de cabeça começaram a ser mais fortes, tremores, vómitos e febre. Alguns comprimidos para a dor de cabeça e as coisas ficaram melhores. Depois de tirar o visto para o Gana partimos. Perto da fronteira, quando tentávamos comer algo a Annemiek começou a sentir-se horrivelmente mal. Tentou encontrar uma farmácia, pelo caminho quase desmaiou, entrou na farmácia e correu para a janela para vomitar. Volto para a Annemiek com comprimidos para a malária. Ela está deitada sobre um banco, com as mãos sobre a cara. Diz que não se consegue mexer, que se sente mal, que não pode mais. Vamos para um quarto barato e deitamo-nos. Ensopando os lençóis negros de sujidade. Só nos levantamos para vomitar. No segundo dia, levanto-me. Sei que temos de comer mesmo que isso seja a última coisa que nos passa pela cabeça. Demoro 45 minutos para trazer todos os ingredientes do carro para o quarto. O carro está a 3 metros de distância. Deito-me com as cebolas, alhos, cenouras e couves sobre o peito. Levo mais uma hora a preparar uma sopa. Agora o mais difícil. Comer.

No final do segundo dia a Annemiek estava com 41º de febre e eu com 40. Os comprimidos não estão a fazer nada. Enquanto ponho toalhas molhadas sobre a testa da Annemiek, ela olha-me com olhos de choro e pergunta-me se vai morrer. Eu beijo-a e sorrio. - Não, claro que não. Vou para fora do quarto e sento-me no chão, sei que onde estamos os hospitais na melhor das hipóteses, são maus. O dono do local onde estamos, vem ao meu encontro.

- Deveriam ir ao hospital. Eu posso ajudar.

- O hospital daqui, é bom?

- Há piores.

Responde-me, encolhendo os ombros. 

Entramos para o escritório, onde um enfermeiro recebe-nos com a maior das amabilidades. Explico que penso que temos malária e que gostaria de ver um médico. Ele diz-me que é a pessoa mais graduada do hospital. Sorrio, enquanto penso nas palavras do dono do quarto, “há piores”. No meu fraco francês explico os sintomas, ele abana a cabeça e diz que tem de nos tirar uma amostra de sangue. Está confirmado, temos malária. Não percebo bem o resto, só entendo que temos de passar lá a noite, para levar uma infusão de medicamentos. Vinte e um, para ser mais exacto.       

Ao redor do hospital, pessoas dormem ou descansam no chão. Mulheres com crianças ao colo esperam a sua vez à porta do enfermeiro. Um homem chega com uma velha às costas. Provavelmente a sua mãe. Nos quartos só os felizardos têm direito a colchões, os menos felizes deitam-se sobre cartões. Não há lençóis, não há almofadas ou casas de banho. As camas estão ferrugentas, as paredes negras e não há sequer uma rede mosquiteira.

O tratamento custou cerca de 8 euros. Quantos naquele hospital puderam pagar isso? Fecho os olhos, enquanto os medicamentos percorrem o meu corpo. Fecho os olhos para não ver a velha que chora aos pés do enfermeiro, para que trate da sua neta. Fecho os olhos de vergonha. Vergonha de ter.

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