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Início da viagem por África: Marrocos

Vejam as fotografias que tirámos ao longo deste percurso

O barco deixou o cais, para trás ficou a família, a terra, o conhecido. Quanto tempo levaria até eu voltar a vê-los? Peguei no livro de francês – português, tinha de aprender em 35 minutos o básico em francês. Trinta e cinco minutos, para a nossa ficção, ser trocada pela nossa realidade. A nossa primeira paragem foi em fés. Fomos até à Medina, ver o nosso novo mundo. Ouvir os barulhos, sentir os cheiros, habituar-nos aos toques, às vozes altas, a língua. Ver esse novo mundo, com os olhos dum velho local, para poder entender a sua alegria, a sua dor, entender o significado dos pequenos gestos do seu povo. Só assim poderíamos ajudar.

Fés é a mais antiga das capitais imperiais e a mais completa do mundo árabe. Parece estar suspensa, entre os tempos medievais e a modernidade. Mais de 800.000 pessoas continuam a viver na cidade Medina, que pouco tem do oeste sem ser electricidade e turistas. A próxima paragem foi em Midelt, uma pequena cidade no interior do Atlas. Por detrás da cidade, está a cordilheira de Djelbel Ayachi com 3.700m de altura. Nas noites límpidas de lua cheia, pode-se ver o s seus picos nevados.

A maioria das pessoas que aqui vivem são Berber, muitas vieram das montanhas, à procura de uma vida melhor. Falando com essas mesmas pessoas, fomos descobrindo caminhos que nos levariam até ao interior profundo do grande Atlas. A sítios esquecidos pelo tempo.

Os 175 Km feitos a partir de Midelt, foram feitos numa estrada razoavelmente boa, mesmo assim, levou sete horas para chegar ao lago Isli. Pelo caminho, passámos em muitas povoações, numa delas, tentámos dar alguns dos pequenos brinquedos que trazíamos connosco. Uma criança, duas, cinco, dez, quinze, um emaranhado de mãos entravam pela janela adentro, gritos, empurrões, os ânimos exaltaram-se. Tempo de partir. A Annemiek agora entendia quando lhe tinha dito, (Há que ouvir os barulhos, sentir os cheiros, habituar-nos aos toques, às vozes altas, à língua).

Visto do topo da montanha, o lago sobressai como uma enorme mancha azul, sobre um deserto infindável de castanho. Além disso, a única coisa agora, era o nosso carro. Passaram dois dias, o único sinal de vida que viramos, tinha sido um homem com três camelos, um outro montado num burro e lá ao fundo com os binóculos, podia ver pastores.

Ao terceiro dia, pela manhã, enquanto descíamos uma montanha, tivemos o primeiro contacto. Um homem de cara coberta, tinha aparecido do meio do nada. Comunicámos por sorrisos e por desenhos feitos com o dedo na terra. Ele acompanhou-nos ao carro, onde algumas dezenas de ovelhas, tinham parado para beber. Outros homens de caras cobertas, estavam esperando.

Estava nervoso, tinha ouvido tantas histórias más acerca de Marrocos. Agora estava ali, no meio do nada, sete homens de cara coberta e com paus nas mãos estavam há minha frente. As histórias que ouvira, tinham criado fantasmas, que agora me assombravam. A tensão foi rompida com um sorriso e um aperto de mão. Afinal eles não eram aqueles fantasmas maus que me tinham pintado. Eram apenas pessoas curiosas, que queriam falar. Queriam ver o nosso mundo, da mesma maneira que eu queria ver o deles.

Mais tarde, o primeiro homem que conhecemos voltou com um outro. Trouxeram ovos e convidaram-nos para beber chá em sua casa. Era uma casa feita de pedra e uma mistura de lama e palha. Para entrar, tive de baixar a cabeça e habituar os olhos à escuridão que fazia lá dentro. Entrámos para a maior das habitações, as paredes estavam pintadas de azul e branco, meio por meio. Sentámo-nos sobre as carpetes, que a mulher da casa, tinha trazido. À volta de uma pequena mesa, bebemos chá e comemos um pouco de pão com ovo. As crianças brincavam ao nosso redor, com os pequenos brinquedos que tínhamos trazido. Tudo aquilo, para mim era irreal, no sítio que estávamos, da maneira como tínhamos lá chegado, aquela gente sem nada, mas cheia de bondade.

A minha viagem poderia ter acabado no dia seguinte, poderíamos ser roubados e todos os nossos sonhos ir por água abaixo. Mas já tinha valido a pena, já tinha descoberto a verdade com os meus próprios olhos. Os fantasmas tinham desaparecido. Depois de doar roupa, partimos, desta vez ainda com mais vontade. Para onde íamos agora não havia mapas que mostrassem o caminho. A única coisa que tínhamos era um desenho feito por um local.

Sabíamos como começar mas não fazíamos ideia onde íamos acabar. Depressa entendemos porque não havia mapas para mostrar para onde íamos. Era simples, não havia estradas. Eram caminhos de burros, rios e falésias. O nosso carro, era o único táxi que não se pagava em Marrocos. Havia sempre gente atrás ou em cima dele.

Quanto mais penetrávamos nas montanhas, mais víamos as diferenças nas pessoas. As crianças já não vinham a correr a pedir chocolates, ficavam paradas, quando nos viam, algumas fugiam. Os mais velhos levantavam as mãos com um ar de espanto. Quando parávamos para dar roupa, era muito a medo que vinham até nós. Alguns mal tinham a roupa fugiam, pelo meio das montanhas, como que a sua vida dependesse daqueles abrigos para passar o próximo Inverno.

Se há coisas que eu nunca vou esquecer, será o riso daquelas crianças ao verem a sua roupa nova. Os seus olhos a brilharem por terem um brinquedo, ou a gratidão daquele velho por o ter ajudado. Nessa primeira etapa demorámos 9 horas e 30 minutos para fazer 103 Km, estávamos cansados, sujos e com dores. Mas também os nossos olhos brilhavam, o nosso coração pulsava mais forte que nunca, por conter emoções tão fortes. Eu nunca tinha sentido algo assim.

Vejam as fotografias que tirámos ao longo deste percurso


 
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