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Travessia pela selva dos Camarões para o Congo

Youndé, capital dos Camarões. O ponto de partida para a verdadeira aventura. Fomos de embaixada em embaixada para obter vistos e informações. Falámos com padres, que tinham missões na selva, com organizações de protecção animal, que conheciam a área para onde íamos. Até falámos com um general. Tudo isto para saber se era possível ir dos Camarões para o Congo e logo atravessar o Congo de norte a sul. As informações que tínhamos arranjado pela Internet de outros viajantes eram antigas, de antes da guerra. Depois da guerra não haviam informações. Não sabíamos se as pontes tinham sido bombardeadas, se a área estava no controle do governo ou de rebeldes. As informações eram contraditórias. O máximo que conseguimos saber, era que, quase de certeza era possível ir por terra até ao Congo. Depois disso ninguém parecia saber.

Em Youndé voltámos a encontrar o Guiome e a Cristine. Um casal de franceses, que já tínhamos encontrado no Gana. Guiome tinha ficado tetraplégico aos 25 anos, quando jogava rugby. Isso não o tinha impedido de viajar toda a sua vida, na companhia da sua mulher. Muitas vezes com a mochila no colo, de autocarro para autocarro. Ao saberem das nossas intenções perguntaram se poderiam vir connosco. Guiome tinha passado horas a fio, defronte do computador para saber se era possível fazer este trajecto. Mas também ele não tinha encontrado nada de palpável.

Passámos 2 dias a discutir os prós e os contras. Sabíamos que se fossemos pelo Gabão seria muito mais fácil, menos perigoso. Pelo lado do Congo, seria uma incógnita até onde poderíamos ir. Além dos perigos, assalto, rapto, violação ou mesmo morte. Na verdade havia mais pontos contra de que a favor. No segundo dia ao fim da tarde, olhámos nos olhos uns dos outros, sempre com a mesma pergunta a pairar no ar. Arriscamos ou não? A Annemiek com um sorriso e um encolher de ombros disse, "Não sei para que estamos aqui tanto tempo. Eu conheço-te. Sei que tu irás pela rota mais difícil, por onde os outros têm medo de ir. Aí esta a tua glória, fazer o teu próprio caminho. Esse é o teu sonho e também o meu. Vamos". Essas eram as palavras que eu precisava de ouvir.

Passámos todo o dia a viajar em direcção ao Este. Ao final do dia subimos uma colina à procura de sítio para dormir. A colina era mais íngreme e escorregadia do que pensava. Os travões não aguentaram o peso do carro, derrapámos uns 15 metros até que caímos numa valeta. Com a ajuda dos franceses e de alguns locais lá conseguimos tirar o carro. Mas a parte esquerda ficou completamente danificada. Apesar desse episódio deixar-nos com a moral em baixo, nunca pensámos em desistir. Afinal de contas estávamos a seguir o sonho. Nesta parte do globo existem pessoas fascinantes, como os pigmeus, e animais raros como gorilas e elefantes da floresta.

Dia após dia entranhávamo-nos mais na selva. As grandes vilas tinham desaparecido. O mapa deixou de ter utilidade. Seguíamos por estradas feitas pelas companhias madeireiras, que nos levavam até a segunda maior selva do mundo.

À beira da estrada de terra batida, começaram a aparecer pequenas palhotas redondas, feitas de troncos e cobertas por folhas. Pareciam flutuar entre o fumo das fogueiras. Macacos e ginetes enforcados pela sua própria cauda, faziam fila defronte às palhotas. Era essa a razão pela qual essas pessoas se tinham mudado para perto da estrada. Agora, depois de milhares de anos de isolamento, elas têm a oportunidade de ver coisas novas. Trocar os animais que caçam por arroz, farinha, feijão e outras coisas, tais como, roupa, medicamentos, sapatos, ou uma arma que possa fazer a sua vida de caçador mais fácil.

É fácil para nós, gente da cidade, criticar esses caçadores. Dizer que esses pobres animais têm direito à vida. Que as companhias madeireiras estão a destruir as selvas com as suas estradas. No entanto nós, matamos todos os animais ao nosso redor, que são perigosos para a nossa existência. Temos boas casas para viver, hospitais para ir, comida variada, sonhos infindáveis. Mas para essa gente, a estrada é a única ligação com o mundo dos sonhos. Com uma vida melhor. Devíamos criticar e julgar aqueles que usam a mão de um gorila para fazer de cinzeiro, aquele que expõe a cabeça de um elefante na sua sala, para se sentir mais homem. Daqueles jardins zoológicos que pagam para raptar animais, apenas para benefícios monetários. Mas como podemos nós apontar o dedo, àqueles que buscam uma vida melhor, para si e para os seus filhos?

Os pequenos habitantes guiados pela curiosidade saíam a medo. Ficavam parados com os seus corpos desnudos, defronte às palhotas. Admirando a nossa cor, as nossas roupas, os raros objectos que transportávamos. O fascínio era mútuo. Nós tal como eles estávamos fascinados...., maravilhados. Pelas suas dimensões, pelas tatuagens que decoravam os seus rostos, pelos seus dentes aguçados, como os animais selvagens, pelo seu modo de vida quase pré-histórico, que deixava as nossas fantasias a milhares de quilómetros da verdadeira realidade.

Não foi fácil o nosso primeiro contacto. Sempre que nos viam a chegar de carro, fugiam pelo meio do mato. Quando parávamos a uma certa distância, mostrando as roupas e brinquedos, eles recusavam-se a vir até nós. Sabíamos que era normal esse tipo de comportamento nas mulheres e raparigas. Já tínhamos visto o mesmo, em quase todos os sítios por onde tínhamos passado. Fugiam dos carros, porque muitas vezes com eles veio o horror da violação, ou por vezes do rapto. No entanto aqui não eram somente as raparigas que fugiam, também os rapazes mantinham-se ao longe, mesmo que nos seus olhos brilhasse o brilho do desejo de ter aquele brinquedo, aquela roupa.

Sabíamos que os pigmeus não eram considerados humanos, que nos países onde eles habitam, que são pelo menos sete, nenhum lhes concede os direitos básicos de qualquer ser humano. O que não sabíamos, era que não era só as violações e raptos. Os pigmeus são também utilizados em sacrifícios, em especial as crianças, por serem presas fáceis. As outras tribos, raptam, torturam, matam e comem-nos. Para assim terem a destreza, habilidade e força que eles têm para caçar na selva. Portanto quando essas pessoas fogem, elas fogem de rapto, violação, sacrifício e canibalismo. Boa razão para não confiar em ninguém. Para nós uma lição e lembrança que estávamos longe do nosso mundo citadino. Aqui as regras eram bem diferentes.

Estávamos entre a fronteira do Congo, República do Congo, África central e Gabão. Já tínhamos convivido com os pigmeus, que sem dúvida tinha sido um ponto alto na nossa viagem. Agora havia mais um desejo, um sonho a realizar. Queríamos ver um gorila. Sabíamos que era difícil, mas havia a possibilidade, nós tínhamos de tentar. Seria mais um diamante no nosso baú de tesouros.

Guióme e Cristine acamparam no sítio até onde o carro pode ir. Eles ficariam à nossa espera até três dias, se não voltássemos eles iram procurar ajuda. Assim partimos para uma das caminhadas mais difíceis que já tínhamos feito. Seguíamos por caminhos abertos pelos elefantes. A selva parecia engolir-nos, as lianas e ramos pareciam que nos agarravam a cada passo. Com a bússola numa mão e a catana na outra, abríamos caminho, mas a um passo muito lento. Ruídos de milhares de animais ecoavam por entre a selva, mas poucos se podiam ver. Mais tarde vimos "ninhos" de gorilas. (Os gorilas fazem "ninhos" todas as noites. Os "ninhos" são feitos de folhas e ramos moles). Depois começámos a encontrar excrementos frescos de elefantes. De um momento para o outro a selva parecia louca. Macacos saltavam em todas as direcções, gritando, abanando os ramos e olhando-nos como que dando o alarme para o resto dos animais. O nosso coração começou a bater mais rápido, todos os nossos sentidos ficaram alerta. Nós estávamos à procura de gorilas, mas ali habitavam muitos outros animais, que poderiam ser perigosos para nós. Elefantes, leopardos, cobras e o mais perigoso de todos, o búfalo. Algumas horas antes, a Annemiek tinha estado muito perto de ser mordida por um cobra.

Da mesma maneira que a loucura tinha começado, também acabou. Era agora tempo dum silêncio aterrador. Olhámos em todas as direcções, mas a vegetação não nos deixava ver mais que alguns metros no seu interior. Esperámos em silêncio. Um turbilhão de emoções enchia-nos o peito. Queriamos ver que animal ali estava. Ao mesmo tempo, tínhamos medo que o nosso desejo se transformasse no nosso pior pesadelo. Esperámos, até que a selva voltou a ganhar vida, mas nunca chegámos a ver que animal se escondia atrás da folhagem.

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