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Histórias do Mali

Estamos no meio da época das chuvas, há vida em todo o sitio que se olha. Flores de mil e uma cores, atraem pássaros de cores tão diversas quanto elas. As pessoas mudaram. Apesar de Mali ser um país predominantemente muçulmano, as pessoas não se vestem tão a rigor como no norte de África. Pelo contrário, à beira de lagos e rios, mulheres de peito desnudo lavam a roupa, enquanto crianças nuas brincam ao seu redor.

As casas são feitas de barro, com telhados de palha pontiagudos .Há um sentimento mais profundo de estarmos em África. De Nema tínhamos viajado até Nara, que fica a uns  50 quilómetros já em Mali. Foi na estrada de Nara para Niono que doámos o maior número de roupa, em especial numa das muitas vilas feitas de lama, que para dizer a verdade, nem sei o nome.

Cerca de 50 a 60 crianças rodeavam o carro. Tudo estava calmo enquanto a Annemieke demostrava como se fazia um puzzle. Mas, no momento que eu começei a dar a roupa, o círculo começou-se a fechar. Vendo que sozinho não podia conter todas aquelas crianças pedi a ajuda de um local para que ele chamasse as crianças uma a uma. Infelizmente isso foi impossível. Em poucos segundos, havia uma multidão de braços erguidos, empurrando-se entre si. Agora não só as crianças mas também os adultos. Naquele momento lembrei-me das imagens que vira tantas vezes na televisão. Quando ONGs davam comida e roupa.

Muitas vezes, vi pessoas ligadas às ONGs, a baterem para controlarem a multidão. Eu pensava para mim mesmo “que brutalidade, não havia necessidade de tanta violência”. Agora as imagens passavam de fronte aos meus olhos, não no pequeno écran, enquanto sentado no sofá. Agora o meu coração batia a uma velocidade louca. Como conter aquela gente? Como explicar que não havia necessidade de tanta violência? Como fazer com que a minha voz fosse ouvida no meio de tantos gritos?

    Segou - uma pequena cidade no norte de Mali. Foi aqui que finalmente pude tentar arranjar a bomba de gasóleo. Foi debaixo de uma palhota que encontrei o nosso homem. Uma mesa e dois bancos, sobre a mesa uma caixa de ferramentas, que aparentemente continha todas as ferramentas para pequenos ou grandes trabalhos. Havia de soldar alguns ligamentos,dentro da bomba de gasóleo. No entanto eu não via nenhum ferro de soldar, que fazia com que a minha curiosidade crescesse com o passar do tempo. Um dos ajudantes trouxe um braseiro, onde um ferro com um parafuso na ponta, tinha sido introduzido. Depois de uns 15 minutos a abanar o braseiro tiraram o ferro. Rasparam com uma lima no parafuso e com um pequeno fio de cobre, derretiam sobre a parte que tinha de ser soldada. Deixando uma enorme marca negra, de queimadura sobre a parte plástica. A mesma operação foi feita algumas dezenas de vezes. Depois de três dias, por incrível que pareça a bomba de gasóleo, não estava arranjada. Mas o nosso homem tinha a solução. Pôr uma bomba de gasóleo em segunda mão, que tinha sido o que eu tinha dito desde o começo.

    Tinha trazido comigo, duas câmaras fotográficas antigas, queria vendê-las para poder pagar a bomba. Hassam, o dono do sitio onde estávamos a dormir foi a pessoa que escolhi para me ajudar nessa tarefa.

    Nas estradas de Segou, que não eram muitas, via por dia entre 3 a 4 acidentes, ou por não comprirem as regras da estrada ou simplesmente por não saberem como guiar. Andar com Hassam, foi sem dúvida, uma experiência aterradora. Não sei se pelas outras motos, se por ele estar bêbado ou por ele não saber como pôr as mudanças. No entanto tinha  conseguido vender as câmaras por 156 Euros. Mais do que tinha sonhado.

    Foi em Segou, que pela primeira vez, desde que tinha chegado a África, que sentia racismo. Sempre que andava pelas ruas ouvia a palavra “ kebabe” ou algo assim parecido. Que significa, branco duma maneira muito ofensiva e malcriada.

Vezes e vezes sem conta “kebabe, Kebabe” em todos os lados a todas as horas “Kebabe, Kebabe”. Perguntava-me a mim mesmo, se o mesmo acontecesse em Portugal, mas de branco para negro. Seria considerado racismo? Policía estaria envolvida? Televisões? Tribunais? Aqui em Mali, é uma coisa normal, racismo e de branco para negro, de negro para branco não existe tal coisa.

    Eu chamaria Segou a cidade dos guias. Eles estão em toda a parte, sempre tentando vender os seus serviços. Mesmo que quase nenhum saiba a história do seu país. Quando viam que não estávamos interessados, tentavam de todas as maneiras tirar-nos dinheiro. Falando com um deles, pude tirar uma idéia da sua filosofia de vida. A pessoa em questão chamavasse a ele próprio, Light.

- Qual é o teu sonho? Que queres da vida?

 Aqui vou repetir, o melhor que posso lembrar todas as suas palavras.

- Eu tenho uma mulher e duas crianças. Mas quero ter dinheiro para poder ter quatro ou se possível mais.

- Mas quatro mulheres significam, quatro casas, roupa para quatro, comida para as quatro e tudo o mais necessário. Sem contar com as crianças.

- Sim , mas se tiver quatro mulheres, cada uma delas pode dar-me dez crianças, assim poderei ter quarenta crianças. Se os meter a trabalhar na terra, poderei ganhar muito dinheiro e não terei de trabalhar mais.

- Mas tu entendes que esse é o problema de Mali e de grande parte de África. Não deviam ser os teus filhos a trabalhar para ti, devias ser tu a trabalhar para eles. Dar-lhes educação, roupa, comida, etc.

Ele olhou-me como se eu fosse estúpido, mais ou menos com o mesmo olhar, de quando eu lhe disse, que na Europa só tínhamos uma mulher.

     Fiquei muito contente quando deixei Segou e mais uma vez fomos para o mato. As pessoas que nunca viram turistas, em especial crianças, que nunca viram um branco, são tão diferentes da gente da cidade. Eles nunca pedem, apenas dão, sorrisos e muitas vezes indicações, já que passámos a maior parte do tempo perdidos. Sempre que eles aprendem como fazer um puzzle ou têm aquela t-shirt três números acima. Sempre que lhes demos um brinquedo e eles apertaram-no forte contra o seu peito. Ou aqueles com pilhas que se movem, que trazem toda uma vila ao seu redor. Sempre que vejo aqueles sorrisos tão puros, aqueles olhos a brilharem, aqueles obrigados tão sinceros, o meu coração enchesse de alegria e todas as más experiências são esquecidas. É bom estar em África, e é bom estar em Mali.

 
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