Logótipo do Semplanos.com  

Diário de viagem: a travessia de barco no Congo

Cento e cinquenta metros era a distância que nos separava da outra margem. Pediam cinquenta euros por cada carro. Regateámos durante horas para baixar o preço para quinze euros por carro.

O Congo é notoriamente conhecido pelo seu nível de corrupção. Isso ficou bem patente logo no começo, desde o carimbo dos passaportes, onde nos pediram dinheiro pelo seu trabalho de carimbar. Passaram-se horas de conversa fiada, entre sorrisos e mentiras. Passávamos de escritório para escritório, com a mesma história repetindo-se, apenas as personagens do outro lado mudavam mas a conversa tinha a mesma intenção, tirar algum dinheiro dos nossos bolsos.

A princípio riamo-nos, tentando levar as coisas da melhor maneira, como sempre tínhamos feito até aí. No entanto, as horas iam passando e o cansaço deixava-nos sem paciência para continuar a nossa peça teatral. Tinham passado umas quatro horas desde a nossa chegada. Vinte pessoas rodeavam os carros fazendo com que os nossos nervos atingissem o limite das nossas capacidades. Começaram os empurrões, os gritos histéricos e os risos de gozo dos locais. Alguém tirou os boletins de vacinas das mãos da Cristine, dizendo que eles é que mandavam ali. Tirei os boletins das mãos do tal homem dizendo que eu trataria do problema. 

Acompanhei o tal homem do governo até ao seu escritório, sabendo que mais uma vez ele me iria pedir dinheiro por olhar para os boletins. Enquanto me afastava ouvia as vozes da Cristine e da Annemieke gritando para a polícia e oficiais do governo que eles eram uns corruptos.  

O homem que me acompanhou sentou-se atrás da sua secretária, olhando para os boletins. Os meus nervos estavam no limite, especialmente por ver que o homem nem estava a olhar para a página certa. Provavelmente ele nem sabia ler. Os minutos passavam com os meus olhos fixos nos seus lentos movimentos.

Os punhos descansavam sobre a mesa, enquanto a minha respiração se tornava mais audível.

- São dez euros por cada um - Disse olhando com receio da minha resposta.

Não consegui controlar as emoções. Os meus punhos esmurraram a secretária até esta se levantar do chão. Com a outra mão tirei os boletins da mão do homem. Os meus gritos ecoavam como trovões nas paredes nuas do escritório. Os meus punhos dançavam de fronte da sua cara. A minha vontade era de esganá-lo mas sabia que se lhe tocasse não sairia dali vivo. 

Os gritos no escritório tinham atraído a atenção de todos lá fora, muitos já caminhavam na sua direcção quando me viram sair. Pensei para mim mesmo, agora finalmente podemos ir. Estava errado. Depois de quase cinco horas passando por tentativas de suborno, havia alguém a dizer que tínhamos de pagar o barco que já tínhamos atravessado e pago do outro lado. Cento e quarenta e nove euros, era o montante que pediam. 

Sem palavras meti-me no carro, dizendo para a Annemieke fazer o mesmo. Guiei na direcção da barreira policial, o polícia que estava a uns cem metros deu ordem a outro homem para fechar a cancela a cadeado. Voltei ao carro dos franceses dizendo-lhes da barreira e também dizendo o que pensava fazer.

- Por mim arrebentamos a barreira.

- Vamos- disseram eles com um ar de loucos. 

De um momento para o outro estávamos a fugir a alta velocidade ( se se pode chamar alta velocidade a 120 quilómetros por hora), deixando uma  multidão aos gritos. Pelo retrovisor podia ver os polícias com as armas no ar. Era tarde, agora não havia volta a dar, estávamos em fuga. 

Em cada dez segundos olhava pelo espelho a ver se alguém nos seguia. O cansaço tinha dado espaço à euforia ou nervosismo. O que iria acontecer a seguir? Eles não tinham vindo atrás de nós, com certeza porque tínhamos razão. Ou talvez porque tinham contactado a próxima barreira militar e aí seriamos presos? A verdade é que estávamos a fugir mas não sabíamos para onde. Não tínhamos nenhum mapa que nos mostrasse onde estávamos. A estrada por onde seguíamos não existia em nenhum mapa, apenas sabíamos que íamos em direcção a sul. Por entre a segunda maior selva do mundo. 

Depois de cinquenta quilómetros, lá estava uma barreira militar.

Como se nada se tivesse passado parámos, dois militares vieram ao nosso encontro um para cada carro. Fizeram as perguntas habituais, pediram os presentes habituais. Olharam de volta do carro para ver se podiam tirar uma multa mas rapidamente nos deixaram ir. Ficámos seguros que tínhamos feito bem, os polícias e todos os outros não passavam de uma cambada de corruptos. 

No final da estrada erguia-se um enorme muro, enfeitado com arame farpado até onde os nossos olhos pudessem ver. Uma construção completamente fora de local. Um enorme portão de ferro impedia a nossa passagem, defronte a ele homens armados revistavam as pessoas que saiam pela pequena porta que se encontrava ao lado do portão. Pensámos que talvez fosse um quartel militar, uma prisão, mas não, aquilo era a propriedade de uma companhia madeireira francesa. 

Ficámos acampados defronte do restaurante, onde os trabalhadores vinham para beber umas cervejas depois de um dia de trabalho. Agora era altura de obter mais informações de como poderíamos ir para norte. Estávamos no sítio certo, ninguém sabe mais de estradas do que as companhias madeireiras. Nessa noite sentámo-nos no bar a beber a desejada e bem merecida cerveja. Falando do que se tinha passado horas atrás, felizes por ter sido apenas mais uma história para contar. Entretanto conhecemos alguém que trabalhava na companhia, que se ofereceu para nos apresentar o chefe. Ele podia-nos dar mais informações e talvez ajudar. No outro dia lá fomos falar com ele. A conversa começou assim:

- A estrada que vêem no mapa, na realidade não existe. Durante a guerra, as estradas e pontes foram bombardeadas. É completamente impossível ir de carro para sul. Obviamente que isso depois de viajar mil quilómetros para chegar ali não era boa noticia. Mas em África quase que não existem impossíveis.

- E de barco? - perguntámos.

- Há duas ou três semanas atrás talvez mas agora o nível da água está demasiado baixo. Mesmo que arranjem um barco não é boa idéia. Podem ficar presos nos baixios, isso significa quatro ou cinco meses presos no barco.

- E pelo Gabão? Há alguma fronteira?

-Sim, mas não faço ideia se é possível passar por lá. Aliás, nem sei se é possível chegar até lá. Não temos nenhum contacto naquela zona. Há uma outra companhia madeireira naquela zona, talvez se telefonar eles me possam disser. Também há um padre que vive por ali, talvez ele saiba algo.

Depois de muitos telefonemas, chegaram as notícias.

- O padre disse que há seis meses atrás foram mortos pela policia dois homens brancos que viajavam naquela área. Ele não aconselha a viajar ali sem ser num comboio militar. A companhia madeireira apenas sabe a condição da estrada até metade do caminho e diz que está horrível. Eles não sabem se é possível atravessar para o Gabão com o carro, e muito menos as condições da estrada do outro lado.

- Qual pensa ser a melhor maneira?

- Voltem para trás, daqui para sul só de avião.

Isso era algo que nem nos passava pela cabeça. Além de legalmente não poder voltar aos Camarões já que o nosso visto era só de uma entrada, também teríamos de passar pelo mesmo posto policial que fugimos um dia antes. O chefe da companhia insistiu - todas as outras soluções são bem piores.

Foi então que lhe contámos do nosso episódio na fronteira. 

-Vocês são loucos, a vida vale muito pouco por aqui, já ouve gente que morreu por muito menos - disse enquanto abanava a cabeça. Além disso, continuou - O último imposto é legal, todos os outros não o são mas o do barco é. O barco é desta companhia e nós cobramos esse montante para passar - disse, agora com um sorriso nos lábios ao ver a nossa cara de pânico.

Quanto a isso não se preocupem, eu lhes darei uma carta para que passem sem pagar, mas com a polícia, isso já não posso fazer mais nada. 

A viagem de volta foi feita em silêncio, como que tentando atrasar o nosso destino. De repente, um vulto apareceu na estrada. Pego na máquina e tiro uma fotografia sem olhar pelo visor, depois fiquei hipnotizado. A Annemieke nem se moveu, apenas o seu braço se ergueu apontado para o gorila que estava no meio da estrada. As palavras não saíam, apenas soluços de ansiedade saiam das nossas bocas. O gorila parou e ergueu-se sobre duas patas, como que aguçado pela curiosidade. Depois desapareceu como se de um fantasma se tratasse. Foram apenas alguns segundos, não sei quantos mas tinha a certeza que tudo o que tinha passado, que tudo o que iria passar, teria valido apena por aquele instante de pura magia. 

Na fronteira as desculpas foram mais que muitas. Explicámos que estávamos cansados e sobre stress. O polícia foi sem dúvida muito simpático aceitando as desculpas. No entanto, tivemos de pagar a multa de passar sem a sua autorizacão. O valor desta era dez euros, ainda tentámos baixar o preço mas como ele disse que passaria o recibo decidimos não abusar da nossa sorte. África tem as suas coisas boas.  

 
Pesquisa
Mergulhe com os viajantes SemPlanos no México
SocialTwist Tell-a-Friend Construção de site por Visibilidade.net
Página com ligações robustecidas pelo Arquivo.pt.