Logótipo do Semplanos.com  

Areia e mais areia: a caminho de Nouakchott, a capital da Mauritânia

Areia e mais areia, durante centenas de quilómetros. As dunas mudam de cor com o passar das horas. De muitos em muitos quilómetros, aparecem tendas junto à estrada a vender comida. Para entrar nelas, temos que nos ajoelhar e literalmente gatinhar para o seu interior. Camelo e couscous, é o prato do dia. Homens vestidos de branco e azul montam enormes camelos. Parecem vir de parte alguma, por entre as dunas e desaparecem pelo meio de uma vastidão de areia. Uma visão poética e maravilhosa para o viajante de passagem. Uma visão temerosa, para aqueles que vivem em tal inércia de vida.  

Deixamos a estrada principal, para irmos em direcção a Oeste, onde o Sahara encontra o oceano Atlântico. Passámos dois dias a pescar. Nas nossas costas, camelos vagueavam pelas dunas. No mar, golfinhos brincavam nas ondas. Centenas de pássaros, desde pelicanos, cegonhas, bicos de colher, flamingos, águias, etc. Chamavam a este sitio casa. Um verdadeiro paraíso, para aqueles que gostam de ver animais. O mar foi generoso, dando-nos muito peixe. Peixe grelhado, peixe frito, caldeirada, pataniscas e ainda peixe para levar, o suficiente para os próximos dias.

Para entender um país na actualidade, há que entender a sua história. Com a chegada do camelo a Marrocos no séc. III, os Berner começaram a viajar para sul. Isso foi o inicio, das rotas das caravanas, que trocavam ouro, escravos e sal. Nos meados de 1076 a dinastia Almoravid, sedeada em Marraqueche, derrotou o império de Gana, que é hoje a Mauritânia. Em 1674, foram derrotados pelos Árabes. A mistura de culturas, árabe-berbere formou um rígido sistema de castas, que está intacto até hoje. Só em 1981 a escravatura foi oficialmente considerada ilegal. Mas isso é só no papel, a escravatura continua aos olhos de todos os que queiram ver.

Como uma miragem, Nouakchott, a capital da Mauritânia, aparece entre o deserto. Guiar em Nouakchott é um verdadeiro pesadelo.   Tráfego contínuo, buracos que mais parecem crateras, carros não contendo mais que um motor e chassi, carroças puxadas por burros, cabras, pessoas e uma completa ausência de regras. Desculpem, isso não é verdade. Há duas regras fundamentais. Não bater em nada ou ninguém e o maior carro tem prioridade.

Nos mercados vende-se um pouco de tudo, mas nada é vendido ao quilo. Tudo é vendido à unidade. À carne e ao peixe, há que tirar a camada de moscas que os cobrem para os poder ver. O chão está coberto com sacos plásticos, misturados com areia negra. Pessoas urinam e defecam onde lhes apetece. Não é a cidade mais bonita do mundo como podem ver.

Curiosamente não vi uma pessoa com traços árabes no mercado, apenas negros, a classe mais pobre. Curiosamente também, não vi um negro a guiar um carro. Pelo menos um carro que estivesse completo. Ou dentro de uma loja, ou com uma roupa decente. O que vi, foram negros a encherem camiões de areia com pás, com temperaturas de 45 e 46 graus. Negros a lavarem os carros, daqueles com traços árabes. A carregarem enormes cargas às costas, a forjar o lixo, a mendigar. Alguns tinham pequenas carroças, puxadas por pequenos burros, onde transportavam mercadorias. Parecia que era nos burros que eles descarregavam toda a sua raiva. Batendo-lhes com toda a sua força para que o burro andasse mais depressa. Batiam até sangue jorrar, até a carne viva ser visível e o pobre burro se entortar com a dor. Talvez eles tratassem os burros da mesma maneira que eles próprios eram tratados.

Cerca de 95% dos viajantes, que veêm de Marrocos até Nouakchott, seguem em direção ao Senegal. Nós fomos para Este e uma vez mais entranhàmo-nos no deserto. Primeiro até Aleg, depois até Kiffa, Timbegha e por fim Nema. Foi ao longo dessa rota que doámos roupas e brinquedos. Em Marrocos as crianças, apesar de serem umas das mais selvagens que vira até hoje, não lutavam entre si. Talvez porque fossem todos da mesma família. Mas na Mauritânia a história era diferente. As crianças lutavam por qualquer peça de roupa ou brinquedo. Murros, pontapés, gritos. Mais de uma vez tive de intervir, para pôr termo à violência.

A cerca de um quilómetro de Nema, o tubo de escape partiu-se. Fazendo assim duas avarias em dois dias. Um dia antes, a bomba de gasolina tinha deixado de trabalhar. Como planeávamos sair do pais ainda nesse dia, tinha-mos pouco dinheiro connosco. Apenas o suficiente para pagar a taxa na fronteira. Assim tive de trocar um relógio, que tinha comprado na Tailândia para ocasiões como esta. Tinha custado dois Euros. Depois do tubo de escape estar arranjado e montado, partimos para a esquadra de polícia de Nema, para tratar das formalidades de saída. Mesmo estando a mais de 200 quilómetros de distância da fronteira, Nema era a última vila, a partir dali só mato.

Dois carros sem rodas estavam à porta, tinham os capons abertos e os motores desmontados. O edifício não tinha janelas ou portas, penso que originalmente era de cor branca. Mas havia que olhar com muita atenção. Lá dentro dois polícias dormiam no chão, embrulhados em lençóis. No lado direito, estava um outro polícia sentado por detrás de uma secretária. Que era a única peça de imobiliário de todo o edifício. O polícia da secretária, chamou um dos que dormia e esse chamou o outro. Que acordou depois de vários empurrões e chamadas. Abriu os olhos, esfregou a cara, tentando entender o que se passava à sua volta e por fim escarrou para o chão. Depois de ver os passaportes e papéis, disse que tinha de ser o chefe a tratar daquilo. Ainda que a única coisa que tinha de fazer era escrever os nossos dados pessoais no papel e pôr os carimbos nos passaportes.

- Desculpe, o chefe vai demorar muito? 

- Não sei. Respondeu já deitado e com os olhos fechados. 

- Está bem, então eu espero.  

Respondi, sentando-me no meio dos dois polícias, de maneira que nenhum deles pudesse ter conforto e fazendo perguntas constantes. Cinco minutos passaram. O polícia mais graduado voltou-se a sentar. Vendo, que comigo ali seria impossível ter descanso, decidiu, que talvez, ele mesmo pudesse fazer aquele trabalho difícil e escrever os nossos dados pessoais. No final, abriu os nossos passaportes para pôr os carimbos. Mais uma vez usou a sua potente escarra. Desta vez em direcção da esponja azul, onde o carimbo iria ensopar a tinta.

- Podem sair do pais, tudo está em ordem.   

 


 
Pesquisa
Mergulhe com os viajantes SemPlanos no México
SocialTwist Tell-a-Friend Construção de site por Visibilidade.net
Página com ligações robustecidas pelo Arquivo.pt.