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Benin, Togo e Nigéria

Estou sentado debaixo de uma barraca a comer algo. Homens e mulheres estão sempre a passar, tentando vender relógios, óculos, rádios, sabão e até peças para carros. Sabem quantas vezes eles me perguntam se quero comprar? Eu sempre digo que não.

Mas sabem acerca das famílias que eles sustentam? Eles andam com vinte quilos sobre a cabeça todo o dia, apenas para dar algum arroz com molho às suas crianças. E aqueles que vêem ao nosso carro e ali ficam horas apenas para pedir alguma comida. Sabem o que eles sofrem em casa?

A mulher que lava o chão, para ver se lhe dão alguns restos de comida. Mas mandam-na embora, porque ela está a estragar a vista. Eu não entendo. Às vezes as minhas viagens e esforços fazem-me sentir inútil, porque vejo nos seus olhos o seu desespero. Sei que posso escrever acerca daquilo que fazemos, que comemos nos mesmos sítios que eles, que utilizamos as mesmas "casas de banho", que dormimos nos mesmos sítios que eles. Mas há aqui uma grande diferença.

Nós temos a opção. Vamos de volta ao nosso carro e pensamos na nossa família, no nosso mundo. Nós podemos sempre regressar.

Eles não têm opção. Porque não fazer a diferença? Dêem-me uma razão? Choro por uma razão. Vejo os olhos destas crianças defronte a mim, implorando com as mãos na boca, pedindo uma simples coisa. Comida (Por favor, dêem-me algo para comer). Que posso eu fazer? Que posso eu fazer por todos eles? Sou demasiado pequeno para alimentar todas essas bocas. Por favor, dêem-me uma razão.

>> Fotografias de Benin e Togo.

>> Video sobre a passagem por Benin e Togo

Nigéria

O nosso livro guia, diz acerca da Nigéria que "é um país caótico, crime violento e roubos acontecem por todo o país. A polícia é extremamente corrupta. Não podemos viajar pelo país, verifique a situação antes de ir". Mais à frente diz "Nigéria é o país mais corrupto do mundo". No início desta viagem decidimos que não iríamos passar pela Nigéria.

No entanto com os problemas em Chade a agravarem-se e com o fecho de todas as fronteiras, não tivemos opção se não ir pela Nigéria. Tínhamos um visa de um mês, mas os guardas fronteiriços apenas nos queriam dar cinco dias. Dei-lhes um número e uma morada falsa, convidei-os a ir de férias à Europa, que podiam ficar na minha casa. No final lá nos deram quinze dias.

A estrada começou de má até ficar horrível. Não podíamos passar os quarenta à hora. Ao entrar numa das primeiras vilas, vimos um grande número de crianças, ordenadas por filas. Defronte a cada uma delas estava um professor. Ao verem-nos, algumas começaram a correr ao lado do carro. Pela janela podia ver umas vinte ou trinta. Em segundos o número cresceu, com gritos de euforia a fazer-nos pensar que éramos alguma banda de rock. As palavras da Annemiek foram "Meu deus, são centenas, de onde é que elas vêem?".

Tivemos de parar defronte à tábua cravada de pregos que nos impedia a passagem. Três homens vestidos a civil estavam debaixo da árvore, com as suas metralhadoras. – Polícias ou ladrões? Perguntou a Annemiek. - Qual é a diferença? Respondi. Fui ao seu encontro com grande dificuldade, já que as crianças literalmente bloqueavam todas as portas. Sempre com cuidado para não as aleijar. Descobri que aqueles cavalheiros de metralhadoras eram polícias e que queriam ver os nossos passaportes. No final eles até eram uns gajos simpáticos, até me ajudaram a abrir caminho por entre as crianças, para voltar ao carro.

Contudo, eles tinham um método um pouco diferente do meu. Um desses simpáticos cavalheiros pegou num pau e com a maior das descontrações começou a bater em tudo o que estava à sua frente. As crianças em pânico começaram a correr para todos os lados, os mais pequenos caíam, com os outros a passarem-lhes por cima. Com estas imagens irreais a passarem defronte aos meus olhos, eu mantinha o meu sorriso amarelo. Enquanto ele me dizia que estava muito contente por ver turistas no seu país.

Daqui para a frente a estrada ficou pior, dos quarenta à hora, passámos para os trinta. Mas não nos interessava, porque à nossa volta estava a África que queríamos ver. Mulheres com colares coloridos, com tatuagens a decorarem-lhes a cara. Os homens em vez de tatuagens tinham cicatrizes, que mostravam a que tribos pertenciam e que estatuto nelas tinham. Estávamos impressionados pela quantidade e diversidade de tribos que existia naquela área.

Parámos numa das vilas mais isoladas, para dar alguma roupa e brinquedos. Apenas cinco ou seis palhotas. As mulheres e crianças estavam a dizer adeus, mas assim que parámos, todos fugiram. As mulheres pegaram nas crianças e correram para dentro das palhotas. Uma das crianças mais velhas correu para o mato.

Passados alguns minutos, dois homens vieram a correr com catanas. Andámos devagar ao seu encontro, mostrando os brinquedos e a roupa, sorrindo e levantando as mãos em sinal de paz. Finalmente um deles pôs a catana no chão e veio ao nosso encontro. Estiquei o braço para o cumprimentar, ele fez o mesmo, mas ajoelhou-se ao mesmo tempo. Em sinal de respeito, fiz o mesmo. O outro homem lançou a catana ao chão e veio para nos cumprimentar. Estávamos em paz.

A medo as mulheres começaram a sair das palhotas, trazendo as crianças, que cada vez que nos viam choravam mais alto. Demos as primeiras t-shirts e camisolas aos homens, para quebrar a tensão. Eles de imediato foram para dentro das palhotas, saindo segundos depois com a sua roupa nova. Depois foram as mulheres e crianças.

De todos os brinquedos que demos, ouve um, que obteve uma atenção especial. Um pequeno piano a pilhas. A principio o piano era para as crianças, mas depressa entendemos que os adultos estavam fascinados por aquele aparelho, que ao toque de um dedo trazia sons aos seus ouvidos. Quando disse para experimentarem, ficaram nervosos.

Penso que eles não entendiam de onde vinham aqueles sons tão diferentes. O primeiro a tentar, sorria na direcção dos outros a cada som novo, como uma criança no dia de natal.

Nigéria podia ter muitas coisas más, mas tinha-nos dado uma das experiências mais gratificantes em África. Viajámos em direcção ao sul, tentando evitar as estradas principais e passando por outras vilas isoladas. Na primeira tentativa, guiámos por duzentos e cinquenta quilómetros, só para descobrir que o barco que supostamente fazia a travessia do rio já não existia. Depois, guiámos mais cento e cinquenta quilómetros, mas a ponte tinha caído. A única maneira era a estrada principal.

Nigéria é uma lotaria, temos que ter sorte para chegar com vida ao destino.

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